Quase lá: “A igualdade só será alcançada em 131 anos”

Em publicação da Cátedra José Bonifácio, Susana Malcorra alinha os desafios para que homens e mulheres sejam tratados do mesmo modo

 

Publicado: 20/10/2023 - Jornal da USP
Por 
 
 
A igualdade da mulher continua sendo indefinida – Arte sobre ilustração Freepik

 

“Repassando a história das Nações Unidas da perspectiva da mulher, fica claro que não faltam instrumentos, nem mecanismos, para avançar para a igualdade de gêneros. Ao longo do tempo, houve numerosas ocasiões nas quais os Estados-membros se comprometeram a promover o empoderamento da mulher, em todos os seus aspectos.

No entanto, apesar de contar com as ferramentas disponíveis, a igualdade da mulher continua sendo indefinida, como assinalam os prognósticos do Foro Econômico Mundial. De acordo com seus dados, no ritmo atual a igualdade de gênero será alcançada em 131 anos, horizonte que retrocedeu 35 anos, devido à pandemia de covid-19.”

Sem dúvida, embute um prazo muito longo esta constatação de Suzana Malcorra, citada nos parágrafos acima, que fazem parte do seu texto Las Naciones Unidas y la Mujer, na publicação Perspectiva Feminista para uma Nova Governança Global, da qual foi coordenadora – publicação esta resultante de seu trabalho como titular da Cátedra José Bonifácio da Universidade de São Paulo, durante o ano de 2023, em que dirigiu equipe de especialistas e pós-graduandos que participaram de estudos sobre o lugar ocupado pelas mulheres na direção de empresas e organizações ao redor do mundo.

A argentina Malcorra tem uma ampla e variada experiência profissional, como descreve o coordenador da Cátedra José Bonifácio, Pedro Dallari: graduada em engenharia pela Universidad Nacional de Rosario, por mais de duas décadas atuou nos setores de tecnologia e telecomunicações. Foi engenheira de sistemas na International Business Machines – IBM e diretora-geral da Telecom Argentina.

Em 2004, a Organização das Nações Unidas – ONU entrou na sua vida. Foi diretora de Operações no Programa Mundial de Alimentos; secretária-geral adjunta do Departamento de Apoio a Atividades de Campo da ONU para trabalhar em operações de manutenção da paz e, finalmente, chefe de gabinete do secretário-geral Ban-Ki Moon.

Em nova guinada, foi ministra de Relações Exteriores da Argentina no governo de Mauricio Macri e presidiu a XI Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio – OMC, realizada em Buenos Aires em 2017. É uma das fundadoras da iniciativa Global Leaders Women Leaders Voices for Change and Inclusion (GWL Voices).

Visita de Susana Malcorra, ex-ministra de Relações Exteriores e Culto da República Argentina, titular da Cátedra José Bonifácio do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, ao gabinete do reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

As desvantagens que prejudicam as mulheres

No seu texto, Malcorra registra amplamente as resoluções e determinações da ONU que teoricamente incentivaram e incentivam o aumento dos espaços das mulheres no mundo, ao longo de suas décadas de existência – mas que são incrementados com vagar ou não incrementados pela maioria dos países que fazem parte da organização. A realidade nem sempre, ou quase nunca, segue os ditames provenientes de organizações mundiais que reúnem países e sociedades mais civilizadas.

“Um dado, muito sombrio, sobre a situação das mulheres foi emitido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em junho de 2023. O novo Índice de Normas Sociais e de Gênero sustenta que, nos últimos dez anos, não houve erradicação das desvantagens que prejudicam as mulheres. É uma tendência muito preocupante que evidencia que, apesar dos esforços realizados e as múltiplas iniciativas tomadas, o mundo está longe de reconhecer a igualdade entre homens e mulheres, tal como foi estabelecido na Carta de Fundação das Nações Unidas”, registra Malcorra em seu artigo.

A GWL Voices, que ela dirige, publicou o estudo A Comprehensive Mapping of Women´s Leadership in Multilateral Organizations. “Os resultados mostram uma realidade muito preocupante”, comenta Malcorra. Um levantamento incluindo 33 organizações, no período entre 1945 e março de 2023, constatou que elas tiveram 382 líderes, entre os quais apenas 47 mulheres, que as comandaram  durante apenas 12% do seu tempo de existência. Desse conjunto, 13 organizações nunca tiveram uma mulher em seu comando e cinco tiveram em apenas uma ocasião. A presidência da Assembleia Geral da ONU teve apenas quatro mulheres, num lapso de tempo que representa apenas 5% de seus 78 anos de existência. E a própria ONU nunca teve uma mulher na sua Secretaria Geral.

Infância, alimentação, população e saúde

“Está demonstrado que a participação das mulheres em postos de liderança é maior em questões ligadas à infância, alimentação, população e saúde. Há uma notória falta de representação em questões vinculadas à política, paz, segurança e finanças. Esta é uma forma de perpetuar os preconceitos com os quais se delimitam os papéis que as mulheres podem assumir”, afirma Malcorra.

Defensora da ascensão de uma mulher ao posto de secretária-geral da ONU, ela assim justifica sua posição: “A incorporação de uma visão feminina À Secretaria Geral também pode gerar um impacto positivo na representação e participação das mulheres em nível mundial. Ao ocupar cargos de alto nível em organismos internacionais, elas podem converter-se em modelos a seguir e promotoras de mudanças, inspirando outras mulheres a envolver-se na tomada de decisões e perseguir papéis de liderança em todas as atividades”.

Observação minha: nessa iniciativa, a União Europeia já se adiantou ao nomear a política alemã Ursula Gertrud von der Leyen como presidente da Comissão Europeia, em 2019.

O livro Perspectiva Feminista para uma Nova Governança Global, além do escrito pela coordenadora Susana Malcorra, apresenta 19 artigos desenvolvidos por especialistas e pesquisadores que analisam a questão sob variados enfoques, formando um amplo painel sobre os desafios para empoderar a participação das mulheres na sociedade.

Não são poucos.

fonte: https://jornal.usp.br/cultura/a-igualdade-so-sera-alcancada-em-131-anos/

 


Matérias Publicadas por Data

Artigos do CFEMEA

Coloque seu email em nossa lista

lia zanotta4
CLIQUE E LEIA:

Lia Zanotta

A maternidade desejada é a única possibilidade de aquietar corações e mentes. A maternidade desejada depende de circunstâncias e momentos e se dá entre possibilidades e impossibilidades. Como num mundo onde se afirmam a igualdade de direitos de gênero e raça quer-se impor a maternidade obrigatória às mulheres?

ivone gebara religiosas pelos direitos

Nesses tempos de mares conturbados não há calmaria, não há possibilidade de se esconder dos conflitos, de não cair nos abismos das acusações e divisões sobretudo frente a certos problemas que a vida insiste em nos apresentar. O diálogo, a compreensão mútua, a solidariedade real, o amor ao próximo correm o risco de se tornarem palavras vazias sobretudo na boca dos que se julgam seus representantes.

Violência contra as mulheres em dados

Cfemea Perfil Parlamentar

Direitos Sexuais e Reprodutivos

logo ulf4

Logomarca NPNM

Cfemea Perfil Parlamentar

Informe sobre o monitoramento do Congresso Nacional maio-junho 2023

legalizar aborto

...