As mesmas modificações de aparência podem ao mesmo tempo servir para diferentes fins.

Por Maria Luiza Viacava Sigoli e Flávia Alexandroni Dias, estudantes de Psicologia, e Jaroslava Varella Valentova, professora do Instituto de Psicologia da USP

  Publicado: 01/11/2023 - Jornal da USP
 
 
Maria Luiza Viacava Sigoli – Foto: Arquivo pessoal
Flávia Alexandroni Dias – Foto: Arquivo pessoal
Jaroslava Varella Valentova – Foto: Arquivo pessoal
Ao pensar em processos de modificação da aparência, imagino que o que venha primeiro à mente sejam os procedimentos de cirurgia plástica ou o uso de maquiagem, isto é, comportamentos focados na estética que fazem uso de tecnologias relativamente recentes. No entanto, a prática de mudar a aparência em humanos não só engloba diversos outros comportamentos, como é utilizada há mais de 100 mil anos.

Qualquer hábito que gere mudanças no corpo entram nesse nicho, ou seja, a variação de roupas, os comportamentos de higiene, os cortes de cabelo, o uso de perfumes, de acessórios, de cosméticos, de maquiagem, os procedimentos cirúrgicos, o bronzeamento, as tatuagens, os piercings, a barba, exercício físico e muitos outros. Neste sentido, a maioria de nós está frequentemente modificando nossa aparência de diferentes maneiras. E como esta tendência de modificar a aparência existe na maioria das populações conhecidas, uma grande parte dos nossos ancestrais provavelmente já possuía esses costumes. Algumas destas mudanças de aparência são reversíveis (como o uso de cosméticos) enquanto outras são irreversíveis (como tatuagens ou procedimentos cirúrgicos).

Existem diversos fatores que explicam a persistência da modificação de aparência em seres vivos, como no caso de larvas de insetos que utilizam materiais variados como pedras ou lama para proteger os corpos moles. Semelhantemente, roupas e vestimentas humanas servem para proteção contra a temperatura, a incidência do sol, a salinidade, a umidade e contra possíveis danos causados pela perturbação da pele. Em parte por causa de fatores ecológicos, as populações humanas mudam as aparências de formas distintas em diferentes lugares do planeta. Estas modificações também dependem do conhecimento tecnológico e do acesso aos materiais locais. Por exemplo, o creme dental com flúor, que estamos acostumados a utilizar em nossa sociedade, serve para proteger, desinfetar e branquear os dentes, sendo este tipo de dentes um sinal de saúde e atratividade em nossa cultura. Porém, em várias culturas antigas, como no antigo Japão com o costume famoso Ohaguro, havia uma mistura para sanitizar os dentes que deixava os dentes pretos. Esta mudança de aparência era julgada como atraente e também como um marcador humano em contraste aos demônios com dentes brancos.

As mesmas modificações de aparência podem ao mesmo tempo servir para diferentes fins. Por exemplo, humanos modificam a aparência para exibirem a qual grupo social pertencem e ao mesmo tempo a quais grupos sociais não pertencem, como no caso de roupas distintas de jogadores e fãs de diferentes times de futebol. Em alguns casos, a mudança da aparência pode sinalizar status social, especificamente com o uso de materiais raros e valiosos, como joias de metais caros, penas de aves dificilmente encontradas ou até dentes e garras de predadores perigosos. Atingir uma aparência rara é, em geral, algo visto positivamente, como, por exemplo, atingir um corpo magro em sociedades com abundância de recursos. Estas mudanças, assim, sinalizam o esforço que a pessoa fez para alcançar o material ou forma corporal custosa. As alterações pelas cirurgias plásticas podem parecer como um meio de encurtar o caminho duro para atingir essas modificações, o que – estudos mostraram – faz com que as pessoas que se utilizam dessas cirurgias ou até de edições de fotografias sejam percebidas como menos confiáveis por terceiros.

Outras modificações de aparência acontecem só em alguns momentos ou períodos limitados, como forma de marcar um período especial que geralmente muda o status social da pessoa. Por exemplo, casamentos ou formaturas e, em outras culturas, puberdade ou circuncisão são rituais que marcam uma mudança social e/ou biológica, e durante o processo se usam táticas de mudança de aparência diferenciadas, às vezes reversíveis (ex. vestido de noiva), às vezes duradouras (ex. aliança).

Como exibido, os fatores socioculturais são cruciais nas mudanças de aparência. Um simples corte de cabelo, por exemplo, pode nos comunicar sinais de status social, etnia, religião, orientação política, gênero, status de relacionamento, entre outros. Essas mudanças não só refletem a individualidade de cada um, por exibirem preferências específicas em relação à aparência, como refletem as características culturais daquela sociedade. Por exemplo, nas sociedades em que lábios volumosos são muito valorizados, será mais frequente a realização de procedimentos de preenchimento labial ou uso de técnicas de maquiagem que passem a impressão de lábios maiores.

Subjacente a toda variedade individual, cultural e ecológica, com distintas técnicas locais para mudanças de aparência, temos os fatores biológicos e evolutivos. Isso significa que o comportamento de alterar a aparência ajudou nossos ancestrais, seja aumentando a sobrevivência (como o que ocorre na camuflagem), seja estimulando a reprodução (indicação de status e exibição sexual, por exemplo). Nesse caso, modificar a aparência é um mecanismo adaptativo e evolutivamente antigo que existe em diversas espécies, aumentando a sobrevivência e reprodução dos indivíduos, sendo, ao mesmo tempo, uma tática que serve para fins sociais, como marcação do próprio grupo social.

Para exemplificar, podemos nos apoiar em um comportamento muito frequente: a maquiagem. A maquiagem afeta a atratividade feminina ao simular indicadores biológicos, como a idade, simetria ou contraste manipulando a própria percepção e a do outro – estudos psicológicos demonstraram que mulheres com maquiagem são avaliadas por terceiros como mais atraentes do que mulheres sem maquiagem. Além disso, elas se autoavaliam como mais confiantes, com uma maior autoestima e até mais saudáveis quando estão usando cosméticos. Isso mostra aquilo que foi exibido anteriormente, que ao mesmo tempo que vontades individuais e fatores socioculturais permeiam essas mudanças estéticas, elas contribuem para a sobrevivência e/ou o sucesso reprodutivo do indivíduo, o que faz com que esse comportamento tenha sido mantido ao longo da evolução.

Portanto, com tudo que foi exposto acima, percebe-se a influência das mudanças de aparência nas nossas sociedades atuais e na história da humanidade e de outras espécies. Elas estão presentes há muitos e muitos anos e isso se dá tanto pelo seu envolvimento com o sucesso social e reprodutivo dos indivíduos, como por ser tão notável em expressar preferências individuais e sinalizadores sociais de populações com culturas específicas. Assim, conclui-se que os instrumentos de modificação da aparência possuem um significativo papel individual, social e evolutivo e, exatamente, devido a sua importância e frequência nas mais diversas populações e espécies, tal área deve ser muito pesquisada, visto que estudos sobre esses comportamentos ainda são bem escassos.

fonte: https://jornal.usp.br/artigos/a-psicologia-por-tras-de-modificacoes-da-aparencia/

 


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