Quase lá: Narrativas de poder e dominação: racismo religioso

Infelizmente, se o diálogo e a convivência pacífica entre religiões e crenças parecem inviáveis, se faz necessária a aplicação da lei, a intervenção da justiça

 

 

 

Segundo levantamento realizado pela startup JusRacial, apenas em 2023, os tribunais brasileiros lidaram com 74.613 ações sobre racismo e intolerância religiosa. Isso representa um aumento de incríveis 17.000% de aumento de casos desde 2009. Se, por um lado, esse número exorbitante de denúncias significa que as populações vítimas desses ataques têm encontrado apoio jurídico e voz para denunciar as violências sofridas, por outro, acredito que seja pouco provável que o nome correto para esse crime seja “intolerância religiosa”. Porque, me faltam dados oficiais, mas se estamos falando de terreiros de religiões de matriz africana destruídos, pessoas de terreiro, candomblecistas e umbandistas vítimas de ofensas, ataques e violência física; se estamos falando de sacerdotes e sacerdotisas agredidos verbal e fisicamente e de imagens de Orixás e Santos relacionados ao sincretismo histórico; talvez o nome seja simplesmente racismo religioso. Porque, em boa medida, esse ódio e todos esses ataques, são direcionados às religiões de matrizes africanas e seus adeptos. 

 

O desrespeito não parece afetar aos crucifixos presentes em salas de justiça em fóruns e câmaras de casas legislativas ou repartições públicas espalhadas por nosso país, supostamente laico. O ódio não parece alcançar os símbolos das religiões de origem europeia presentes no Brasil. Não é de grande conhecimento ou divulgação, que Bíblias cristãs, católicas ou evangélicas sejam rasgadas em praça pública, como símbolos de fé africanas são vilipendiados com ostentação e, aparente, pouco medo de represália, como se a impunidade fosse certeza.   

Em boa parte, possivelmente essas cruzadas e extermínios se expliquem por narrativas religiosas de um monoteísmo que se pretende verdade absoluta. Não é possível desvincular esse problema da polarização política que vem tomando conta do país, nos últimos anos, com uma narrativa maniqueísta, dos “bons” contra os “maus”, dos “cristãos” contra os “comunistas” numa grande confusão de conceitos políticos, sociais e econômicos que desembocam em confusões, ainda maiores e mais graves, de conceitos teológicos e religiosos. Trata-se de uma crise aguda de ignorância histórica somada a um, defendo eu, proposital projeto de controle de massas, por parte de lideranças religiosas pouco adeptas da ética. A seguir, explico.

Terreiro Salinas, em Pernambuco, foi destruído por incêndio em 2022 (Reprodução/Instagram)
Terreiro Salinas, em Pernambuco, foi destruído por incêndio em 2022 (Reprodução/Instagram)

Ao me referir a uma profunda crise de ignorância histórica, trato de conhecimento da própria história: O cristianismo se entende como detentor da verdadeira herança do judaísmo bíblico do Antigo Testamento, porque creem que receberam a revelação de que o verdadeiro Messias esperado se revelou na pessoa de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, ser seguidor do judeu Jesus de Nazaré deveria representar seguir os passos de um revolucionário que anunciava o amor ao próximo até às últimas consequências, da morte na cruz, perseguido por religiosos e políticos de seu tempo por denunciar as injustiças sociais e religiosas da época. Mas passadas essas difíceis circunstâncias, como a perseguição dos mártires cristãos nos primeiros séculos do movimento primitivo, até meados do século IV, quando se tornou religião oficial, os perseguidos passaram a assumir o papel de perseguidores de seus opositores. Isso deve significar que o flerte com o poder e o Estado, historicamente, não deu certo para a religião cristã. Pelo menos, do ponto de vista do seu testemunho religioso. Então, uma breve visita aos seus arquivos históricos deveria ser suficiente para uma importante reflexão e autocrítica.  

Mas aqui entra o outro problema mencionado anteriormente: a crise ética das lideranças que preferem ter massas de manobra sem conhecimento histórico e principalmente teológico, ou mesmo bíblico. Ironicamente, as religiões de matriz africana carecem, em muito, de escrituras sagradas. Em geral, os conhecimentos sagrados, os rituais e memórias dessas religiões, em sua maioria, ainda são transmitidas por tradição oral. Em contrapartida, as religiões cristãs, católica apostólica romana e evangélicas tradicionais, pentecostais e neopentecostais possuem um livro sagrado, a Bíblia. Se a leem, interpretam e praticam os ensinamentos ali escritos, é um assunto a ser debatido mais de perto. Não se pode generalizar e acusar todas as vertentes cristãs de ignorarem os ensinamentos do Cristo. Isso seria leviano e injusto. Mas alguns sinais estão aí: o ódio, a perseguição e a intolerância para com aqueles que não se sujeitam às suas verdades testificam que, no mínimo, a interpretação carece de revisão. Também não se pode afirmar que são cristãos exclusivamente que perseguem as religiões de matriz africana. Pelo contrário, como estudioso da Bíblia e pesquisador do cristianismo, consigo afirmar que, quem adota o ódio, a intolerância, o racismo e a violência certamente não é cristão. Ou, não deveria se afirmar como tal.

Assim, retornamos ao ponto de partida. Infelizmente, se o diálogo e a convivência pacífica entre religiões e crenças parecem inviáveis, se faz necessária a aplicação da lei, a intervenção da justiça. Como já mencionado, o problema não é da ordem apenas da “intolerância”. Porque a resposta para a “intolerância” não é a “tolerância”. Em um país laico, com liberdade constitucional à crença e profissão de fé, ninguém deveria ser tolerado, mas todos devem ser respeitados. Outro argumento nesse sentido é que, como já apontado, parece que só um lado desse mosaico apanha, morre e tem seus símbolos e sacralidades destruídos, constantemente. E o lado historicamente violentado e assassinado, não coincidentemente, é o da religião dos pretos, das pretas, das camadas mais vulneráveis historicamente do país.  

Felizmente, para trazer um respiro em meio a toda essa violência, a Polícia Militar do Rio de Janeiro, estado onde alguns especialistas defendem que nasceu a Umbanda e onde o Candomblé possui uma grande expressão, criou um tipo de policiamento exclusivo para auxílio no combate ao preconceito e racismo religioso. Escolheram policiais praticantes das religiões de matriz africana para prestar atendimento e estreitar laços com sacerdotes e sacerdotisas dessas religiões para receber as denúncias desses crimes. Ainda não é uma realidade em todo o Estado. Utopicamente, o ideal seria que não houvesse necessidade de tal política, mas, essa iniciativa traz alguma esperança de que, pelo menos, em algum sentido, a lei e a justiça se cumpram em favor de quem necessita.  

Carlos Eduardo de Araújo Mattos é professor, historiador, teólogo, mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro “Corpos em sofrimento e monstruosidades – modos fantásticos de narrar o inferno no Apocalipse de Pedro”.

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