Ativistas pretendem chamar atenção de autoridades brasileiras e internacionais para a urgência na adoção do antirracismo como prioridade das políticas climáticas


Mulheres de diferentes estados brasileiros compõem a rede Vozes Negras pelo Clima. Foto: Reprodução

Patricia Santos, do Alma Preta

Um grupo de ativistas negras brasileiras vai à Conferência do Clima (COP), em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, denunciar violações de direitos socioambientais. Com o apoio da Anistia Internacional Brasil, o grupo tem lideranças de favelas, de quilombos, de comunidades pesqueiras, ribeirinhas e afro-religiosas.

O grupo chamado Rede Vozes Negras pelo Clima é composto por nove mulheres, de oito estados. No evento mundial mais importante sobre o clima, que ocorre entre 30 de novembro e 12 de dezembro, as ativistas pretendem chamar atenção de autoridades brasileiras e internacionais para a urgência na adoção do antirracismo como prioridade das políticas climáticas dos países signatários de acordos multilaterais, como o de Paris e o da própria Convenção do Clima (IPCC).

Marilza Barbosa, integrante do Coletivo de Mulheres do Morro do Sossego, no Rio de Janeiro, e uma das representantes do Brasil na reunião, comenta que o antirracismo ambiental precisa fazer parte de discussões e ser reconhecido como assunto pertinente.

“Vamos levar uma agenda climática de mulheres negras e antirracistas. Atualmente, as políticas para o clima não nos reconhecem, nem a nossos territórios, como estratégicos na elaboração de soluções de adaptação e mitigação climática”, diz.

COP exclui discussão sobre racismo ambiental

A organização da 28ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2023 (COP28) já divulgou os temas dos eventos oficiais em cada um dos 12 dias de evento. Na programação, embora estejam previstos painéis sobre gênero e direitos indígenas, não há, entre as mais de 200 atividades paralelas anunciadas, menção a respeito de discussões sobre as consequências do racismo ambiental na vida das populações negras.

Além disso, a ida das brasileiras à COP será para divulgar um relatório que registra violações de direitos relacionados, direta ou indiretamente, às injustiças climáticas. O documento demonstra que o racismo ambiental tem se materializado na violação dos direitos à água e ao meio ambiente saudável, bem como na falta de saneamento básico.

“Vamos também defender fundos de perdas e danos acessíveis e desburocratizados às populações mais afetadas, principalmente em momentos de emergência. Além disso, os planos de contingência e melhorias urbanas devem contar necessariamente com a participação das pessoas mais afetadas”, conta Lídia Lins, co-fundadora do coletivo IburaMais Cultura, localizado nas periferias de Recife.

A estratégia da delegação é reivindicar uma justiça climática antirracista, pautar compromissos dos Estados-membros com a questão até 2025, quando o Brasil sediará a COP 30, em Belém (PA).

Racismo e clima

Um levantamento da Defesa Civil Nacional revelou a existência de 14 mil pontos de alto risco de desastre geológico. Atualmente, são cerca de 4 milhões de pessoas vivendo nesses lugares, a maioria delas negras.

Outro estudo, lançado pelo Instituto Pólis, em 2022, mostrou que famílias negras e de baixa renda habitam áreas menos dotadas de infraestrutura e serviços ambientais básicos nas cidades do país.

Em capitais como Belém, 75% da população que mora em áreas de risco é negra e sua renda domiciliar média é de R$ 1,7 mil. Já nas cidades de São Paulo e Recife aqueles que residem em áreas de risco são, respectivamente, 55% e 68% negros, com renda média de R$ 1,1 mil por domicílio.

Fonte: Alma Preta > https://almapreta.com.br/sessao/cotidiano/ativistas-negras-cop-dubai-violacao-direitos-ambientais/ 


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